São Paulo (AUN - USP) - O nível de stress em pacientes de UTIs coronarianas (de pessoas que sofreram enfartes) pode estar aumentado porque os médicos não estão sabendo lidar com suas exigências. Esse é o resultado de estudos recentes realizados pela pesquisadora Eliane Corrêa Chaves, da Escola de Enfermagem da USP.
"A equipe multiprofissional (médicos, enfermeiros e auxiliares) atende o paciente naquilo que ela julga ser o mais importante e não naquilo que o paciente realmente deseja, desencadeando no corpo dele as reações maléficas causadas pelo stress, retardando sua recuperação e saída da UTI", explica a professora. Segundo Eliane, que trabalha na área de stress há dez anos, tais "reações" seriam: diminuição da capacidade de recuperação dos tecidos, resposta imunológica mais lenta e, conseqüentemente, maior predisposição a infecções no período de tratamento.
Para a pesquisa, a professora utilizou uma escala psicométrica desenvolvida por uma equipe do Hospital Albert Einstein: uma lista com uma série de itens, que seriam circunstâncias estressantes presentes nessas Unidades - como, por exemplo, "não conseguir dormir" - e, ao lado, uma escala quantitativa, variando de 1 a 4, de acordo com a ordem de importância dada ao assunto. A professora submeteu essa tabela aos pacientes vítimas de enfarte e à equipe multiprofissional de um hospital público de cardiologia de São Paulo e o resultado foi surpreendente: nenhum dos fatores assinalados pelos pacientes como os mais estressantes coincidiu com o que os médicos julgaram ser.
Para exemplificar, a esmagadora maioria dos médicos e enfermeiros (93,7%) acredita que o fator mais perturbador para esses pacientes é o fato de ter tubos no nariz ou na boca e os pacientes, ao contrário, apontaram os fatos de estarem amarrados por tubos e não conseguirem dormir, como os agentes mais estressantes. "Essa falta de sintonia entre o que um precisa e o que o outro oferece é o que provoca o stress e dificulta o tratamento", conclui a pesquisadora.
A professora Eliane ainda acrescenta que o tipo de informação recolhido com essa escala tem muito a ver com a especificidade dos pacientes pesquisados. De acordo com ela, não são necessariamente todos os pacientes que se estressam mais com o fato de estarem amarrados por tubos: "as pessoas que sofreram enfartes guardam entre si certas semelhanças comportamentais, como a ansiedade e a hiperatividade, que fizeram com que elas escolhessem, em sua maioria, o mesmo item como o mais estressante. Isso não significa que, por exemplo, doentes de câncer façam a mesma escolha. Seria preciso aplicar a tabela a esses pacientes também, fazer tudo desde o começo".