São Paulo (AUN - USP) - Os alcoolistas que demonstram mudanças mais significativas no sentido de diminuir a dependência do álcool são aqueles que conscientemente buscam o tratamento. Quando o paciente chega ao hospital com esta configuração, há chances de 90% para o alcance do estágio de manutenção sem a bebida. Esta é uma conclusão da pesquisa desenvolvida pelo médico Hercílio Pereira de Oliveira Jr., que reforça a tese de que a força de vontade do alcoolista é fundamental para que a reabilitação seja alcançada.
O estudo foi realizado com 30 pacientes do Hospital Universitário, HU, e 30 do Hospital das Clínicas, HC, e visava estabelecer as características da motivação dos doentes no Brasil.
Para a primeira análise dos pacientes, foi aplicada uma entrevista com o intuito de dividi-los em grupos. Cada grupo correspondia a um dos quatro níveis motivacionais que são os de: pré-contemplação (estágio em que o alcoólico tem pouca consciência da doença), contemplação (o alcoolista já tem um conhecimento do vício), ação (quando há a resolução da busca por tratamento) e manutenção (quando a pessoa consegue manter-se bem, sem o uso da bebida).
Constatou-se uma variação na quantidade inicial de indivíduos para cada estágio. O HC apresentou mais pessoas no nível de ação do que o HU, enquanto este último teve mais no de pré-contemplação. Hercílio explica que isto deve ter ocorrido, pois os pacientes que chegavam ao Hospital Universitário, muitas vezes eram funcionários da USP mandados por seus chefes; logo, não iam à procura de tratamento para o vício, mas sim apenas para uma avaliação de rotina.
Depois da entrevista, o paciente passava à fase de terapia. Dentre os tratamentos conhecidos, foram empregadas psicoterapia e medicação (quando a avaliação médica julgou necessário).
Após três meses de terapia, verificou-se que os pacientes pouco transitaram entre os níveis motivacionais. Não foi possível observar uma ocorrência de ciclo entre os estágios e, por causa das mudanças não satisfatórias, o tipo de tratamento foi questionado.
As causas mais freqüentes para a procura de tratamento estão relacionadas a complicações físicas que o álcool provoca – como hepatite ou doenças no pâncreas. Quando os dependentes dirigem-se aos hospitais com o intuito de sanar seu problema, cabe ao médico, diz Hercílio, “não tratar uma doença, tratar o indivíduo”, a fim de que o paciente seja estimulado a prosseguir o tratamento.