São Paulo (AUN - USP) - Quando se vive no mundo em que uma imagem vale mais que mil palavras fica difícil calcular as limitações que um cego enfrenta. Dificuldades para conceber o espaço em que vive, para ter uma vida independente e para se relacionar com uma cultura essencialmente visual. Sabe-se, porém, que os deficientes podem se integrar mais facilmente à sociedade com a orientação adequada e a utilização dos novos recursos tecnológicos, como o software desenvolvido por Don Parkes, professor da Universidade de Newcastle, Austrália, que permite a preparação de representações gráficas áudio-táteis para cegos. Mapas e figuras feitos no computador ganham relevo, o que possibilita sua leitura pelo tato. A grande novidade, entretanto, é a possibilidade de se associar sons e fala a essas figuras, o que permitiria a adaptação de todo esse mundo imagético para o universo do deficiente visual.
Com mapas, figuras e até plantas de prédios públicos adaptados e associados a placas de som, o cego melhora sua orientação e mobilidade assim como sua independência. Além disso, com essa engenhosa combinação de módulos de software, o próprio cego poderá preparar essas representações gráficas no computador, não mais dependendo da pessoa com visão, tendo a oportunidade de estudar sozinho. Esse programa pioneiro será apresentado pela primeira vez no Brasil no “Encontro Latino-Americano sobre o ensino de Geografia para deficientes visuais”, que acontece de 8 a 10 de maio na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
A organizadora do evento, Regina de Almeida, do Departamento de Geografia da USP, coordena, desde 1988, pesquisas na área de cartografia tátil, desenvolvendo mapas e materiais didáticos para cegos. Há sete anos, ela se uniu a pesquisadores do Chile e da Argentina em um projeto de cooperação para discutir e desenvolver metodologias para o uso dessas representações táteis.
O encontro, que será a quinta Jornada de Cartografia Tátil, pretende reunir profissionais latino-americanos de diversas áreas, tanto pessoas que trabalham com cartografia e Geografia quanto aquelas relacionadas à educação e à deficiência visual. Será uma oportunidade para troca de experiências entre profissionais de vários países e incentivo de novas pesquisas no país.
Além da apresentação dos novos meios tecnológicos desenvolvidos, serão discutidos a integração do trabalho do professor especializado com a escola e a comunidade, as representações gráficas táteis no ensino fundamental e médio e os novos meios de construção de materiais didáticos para deficientes visuais. “É complicado ter criatividade sem ter recursos, os quais muitos profissionais da área nem sabem que existem” afirma a professora Regina, preocupada com a carência de recursos humanos e técnicos do país no ensino para cegos. Ela ressalta, ainda, a importância de se trabalhar adequadamente com o deficiente desde o nascimento, para que ele seja melhor estimulado no desenvolvimento dos sentidos, especialmente do tato, e possa se integrar à sociedade mais facilmente, sem perder o acesso a informação e as oportunidades de trabalho.