São Paulo (AUN - USP) - Crises institucionais com golpes de poder podem vir a acontecer em outros países da América Latina. Essa é a posição defendida pela historiadora Gabriela Pellegrino, professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo. Em sua análise, partindo da crise política em Honduras, Gabriela afirma que as classes dominantes se articulam na quebra da democracia quando seus privilégios são postos em risco.
Reformas sociais que giram em torno de maior distribuição de renda e da maior participação das massas na vida política dos países latino-americanos ainda hoje acarretam golpes políticos como reação das elites. No caso de Honduras, cujo presidente, Manuel Zelaya, foi deposto no dia 28 de junho por militares por convocar uma consulta popular sobre alterações constitucionais, Gabriela afirma que o agravante da situação é a fragilidade do país.
“Honduras não conseguiu afirmar sua soberania; durante o século 19, era a capital da banana, um quintal dos Estados Unidos”, afirma a professora. Essa fragilidade é importante para um posicionamento mais incisivo de organizações internacionais, como a ONU. Segundo a professora, a população que elegeu e apóia o presidente deposto não é capaz de confrontar os grandes interesses que estão em jogo em Honduras.
Chávez e mídia
De acordo com a professora, o presidente da Venezuela Hugo Chávez e seus aliados da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) já se firmaram, em alguma medida, como um bloco de resistência aos Estados Unidos no continente. “Apesar de se constituir em uma conexão do alto, e não das massas, existe muito medo por parte dos Estados Unidos de que haja uma solidificação das relações entre Chávez e os demais governantes dos países latino-americanos”, afirma.
Segundo a professora, o bloco liderado por Chávez configura-se em uma “outra esquerda”, com uma maneira muito particular de gerir seus países. “É um socialismo particular, com outras combinações e inovações, afastado do marxismo”. Apesar de reconhecer que possam existir confrontos entre os governos da Alba e as instituições democráticas, Gabriela rechaça o conceito de populismo, o qual acredita estar “desgastado e impreciso”.
O termo é utilizado por grande parte dos veículos de comunicação para classificar o governo de Chávez e de seus aliados. Para a professora, a abordagem da mídia revela resquícios da guerra fria e de sua polaridade entre esquerda e direita. “Há uma continuidade na postura da mídia em geral frente aos conflitos e golpes de Estado na América Latina e ainda existe um rechaço aos novos projetos de ‘revolução’ das estruturas sociais no continente” afirma.