São Paulo (AUN - USP) - A função terapêutica do contar e do ouvir torna essas importantes técnicas da história oral indissociáveis à saúde. O professor José Carlos Sebe Bom Meihy, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), falou em palestra na Escola de Enfermagem da USP sobre essa aproximação, através do diálogo, entre duas áreas à primeira vista tão diferentes.
A vida de Sebe é, por si, metáfora do tema: historiador de formação tradicional, seu trabalho com essa outra história surgiu da decisão de escrever um livro sobre parceiros de doentes terminais. Quando sua mulher teve câncer de mama, Sebe se aproximou de outros homens na mesma situação que ele. Não existiam livros ou pesquisas que os ensinassem a lidar com aquilo – a mulher mastectomizada ou morrendo -, e a saída foram encontros informais para conversar. Sebe percebeu que o simples ato de falar era o que mais os ajudava naquele momento.
Estatísticas mostram quantas pessoas têm AIDS no Brasil – Augusto & Léa (2006), produto dessa iniciativa do historiador, revela o drama de uma mulher contaminada pelo próprio marido, a história de uma família real da elite paulistana. “O número massacra, desqualifica.” Sebe aponta ser esse o objetivo da história oral: a humanização. Assim, inevitavelmente se aproxima de áreas que cuidam de pessoas, como a enfermagem. Embora as estatísticas sejam importantes, devem dialogar com os dados obtidos da “contação” – termo usado pelo pesquisador.
A história oral parte do contar histórias das pessoas. O registro dessas narrativas em “bancos de histórias” permite diagnósticos capazes de ajudar a coletividade. Exemplo citado pelo historiador é o caso da Colômbia – um programa do curso de enfermagem da Universidade Nacional montou um banco de histórias dos deslocados por causa do tráfico de drogas. Isso permitiu avaliar as reais necessidades de saúde daqueles cidadãos.
A função terapêutica dessa contação vem da criação de sentido para o grupo, para o coletivo, quando se é bombardeado constantemente com informações e tem-se a identidade pulverizada em uma miríade de classificações. “Em uma época na qual se esquece o humano e se vê grande efeitos globais, relembrar a história individual é terapêutico,” explica Sebe.
A incapacidade do contar é uma característica dos tempos modernos – perdemos a visão evolutiva de nós mesmos. A promoção da saúde narrativa, o incentivo às práticas de registro, possibilita o reencontro com nós mesmos. As narrativas reinventam “eus” e a área da saúde deve saber dialogar com essa memória subjetiva e dinâmica, assim como a história oral não pode liquidar identidades através da racionalização.