São Paulo (AUN - USP) - A habilidade comunicacional, essencial na prática da saúde, é ainda desprestigiada por alguns gestores e profissionais da área. Em visita à Escola de Enfermagem da USP, a professora Sarah Cowley, do King’s College de Londres, fala sobre estudos recentes feitos por uma de suas alunas. A pesquisa revela que, muitas vezes, um enfermeiro comunicativo e observador perde lugar na hora de ser escolhido para atendimentos domiciliares. Ele costuma encontrar problemas e necessidades fora dos padrões previstos, e é preferível um profissional que se atenha aos questionários prontos. Além disso, a subjetividade da comunicação ainda não é muito valorizada. No entanto, “nada empodera mais uma pessoa do que dar a ela voz,” diz Cowley, e métodos objetivos podem fazer calar quem mais necessita desse poder.
A docente ministrou uma aula aberta no dia 29 de abril, na qual tratou das complexidades das necessidades de saúde e nas diferentes formas de avaliá-las. Mostrou fotos de Londres, das condições de moradia, e as comparou às de qualquer grande cidade, como São Paulo, lembrando que fatores como esse são muito influentes no bem-estar da população. Os enfermeiros visitadores, aqueles que vão à casa dos pacientes, são quem teria maior capacidade de perceber essas más condições, ou desigualdades da saúde. Às vezes, por exemplo, muita verba é destinada a um problema, como crianças violentadas, e não a outro, como mulheres com depressão pós-parto.
O que acontece na maioria das vezes, porém, é uma valorização de abordagens que priorizam necessidades objetivas (medir sangue, ver que a casa precisa de reparos), em detrimento das subjetivas (perceber que uma criança não está desenvolvendo a fala direito). Métodos de avaliação que têm como objetivo a promoção da saúde, nos quais a comunicação é indispensável, são deixados em segundo plano – ou por não se dar valor à subjetividade, ou porque isso traz problemas mais complexos do que os que um simples questionário abarca.
Cowley atenta para a importância dessa abordagem de promoção da saúde. O propósito é melhorar a qualidade de vida das pessoas sem ter um alvo específico, sem “procurar uma doença.” As necessidades de saúde adquirem conceito diferente, pois se busca tornar os “clientes” em líderes, abrindo a possibilidade para que eles avaliem do que precisam. Esse processo de avaliação muitas vezes informal - uma conversa do enfermeiro visitador com a pessoa - promove e desenvolve a competência participativa dos usuários do sistema de saúde.
A pesquisadora fala sobre como esse empoderamento está ligado à cidadania, uma vez que torna as pessoas mais capazes, livres e lhes dá forças. Uma mulher violentada provavelmente não responderá em um questionário que sofre abusos, ainda mais se o momento não for apropriado para que ela o revele. No entanto, um enfermeiro observador pode perceber que ela precisa de tempo, e estabelecer uma relação de confiança a qual irá fortalecer a paciente. Em seu próprio ritmo, ela ganhará voz.