ISSN 2359-5191

28/06/2003 - Ano: 36 - Edição Nº: 10 - Saúde - Faculdade de Ciências Farmacêuticas
Substâncias encontradas em alimentos ajudam a prevenir o câncer

São Paulo (AUN - USP) - Estudos realizados pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP mostram que alguns constituintes de alimentos influenciam a carcinogênese (desenvolvimento do câncer). Os testes abrem possibilidades para que substâncias de efeito comprovadamente benéfico possam constituir uma alternativa natural aos quimiopreventivos já existentes no mercado.

“Nos alimentos, há tanto substâncias carcinogênicas como anticarcinogênicas”, esclarece o professor Fernando Salvador Moreno, responsável pela pesquisa. Para a análise, foram escolhidos grupos de substâncias de ação positiva. “Basicamente, são nos carotenóides e nos retinóides que a gente tem interesse, e em mais alguns derivados isoprênicos”. Os carotenóides estudados são o betacaroteno (presente em vegetais alaranjados e em hortaliças verde-escuro), o licopeno (encontrado no tomate) e a luteína (presente na couve e no espinafre). Já os retinóides são constituintes de tecidos animais, enquanto os derivados isoprênicos aparecem em frutas e hortaliças. Entre as substâncias de efeito carcinogênico para o homem está a carne queimada do churrasco. De acordo com Fernando, são as partículas provenientes da queima de aminoácidos (pirolisado triptofano, por exemplo) que possuem propriedades carcinogênicas.

O pesquisador explica ainda que o câncer se desenvolve em múltiplas etapas, durante 2/3 da vida da espécie. As fases que envolvem alteração do DNA (iniciação e progressão) são irreversíveis, mas a relacionada à proliferação celular (promoção) não o é. No entanto, se consumidos antes do estabelecimento da malignidade, durante as duas etapas iniciais da carcinogênese, os quimiopreventivos podem evitar o desenvolvimento da doença.

O modelo utilizado nos testes é o de carcinogênese química de fígado induzida em ratos. Segundo o professor, porque já se conhece muito a respeito do fígado do animal, acaba sendo mais fácil distinguir nele as etapas do câncer e definir em qual delas devem ser aplicadas as drogas. Além disso, o desenvolvimento da doença em ratos é bastante semelhante ao que ocorre em seres humanos.

Os animais são alimentados com uma ração normal e tratados, por entubação gástrica, com a substância a ser testada. Passadas duas semanas, aplica-se a dietilnitrosamina, que desencadeia o processo de carcinogênese. Como é sabido que os hepatócitos (células do fígado) apresentam uma capacidade muito elevada de multiplicação, retira-se, após algum tempo, 70% do fígado do rato (que se regenera totalmente em 10 dias). A partir daí observa-se se as lesões formadas por hepatócitos iniciados (que possuem características cancerosas) aumentam de número ou tamanho. O resultado é comparado ao obtido no grupo controle, que não recebeu substâncias anticarcinogênicas.

“Com todo esse avanço da ciência, ainda se faz muito pouco num câncer já estabelecido”, diz o professor. Por isto mesmo, ele ressalta a importância da quimioprevenção em indivíduos que apresentam, por exemplo, um histórico familiar de incidência da doença. Segundo Fernando, mais de 200 estudos já comprovaram que a ingestão de frutas e hortaliças variadas, ao menos cinco vezes ao dia, ajudam a prevenir o câncer.

CUIDADOS DEMAIS
Os mesmo testes foram feitos utilizando a vitamina A (retinol) como anticarcinogênico. Observou-se um efeito importante na etapa de progressão da doença.

No entanto, como a vitamina A é lipossolúvel, pode ficar acumulada nos tecidos se for ingerida em quantidades elevadas e por um período de tempo muito longo. Nesse caso, torna-se tóxica para o paciente. Porém, quando o prognóstico é muito ruim, médicos podem, às vezes, aceitar uma toxicidade relativa para tentar evitar o desenvolvimento de um segundo câncer primário. Portanto, deve-se ter o cuidado de não consumir a vitamina antes de consultar um especialista. “Infelizmente, são ainda poucos os conceitos definitivamente estabelecidos nesta área do conhecimento que se pode transmitir para a população”, conclui o pesquisador.

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