São Paulo (AUN - USP) - Abrangendo uma área 1,5 milhão de metros quadrados no subsolo de Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil, o Aqüífero Guarani tem uma capacidade estimada para abastecer 100 milhões de pessoas. A imensidão dos recursos desse reservatório subterrâneo de água potável, com um volume maior que o relativo à água de todos os rios do planeta juntos, vem orientando os esforços de pesquisadores e técnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), desde o final de 2000, na definição do Projeto do Aqüífero Guarani.
A definição do projeto tem o intuito de aprofundar o conhecimento disponível do reservatório. Em atuação conjunta, técnicos do IPT, consultores do Banco Mundial, do Paraguai e do Uruguai e equipes das universidades públicas paulistas - USP, Unesp e Unicamp - visam, a partir de mapeamentos e pesquisas, a um planejamento do uso racional das potencialidades do Aqüífero.
No que se refere ao aproveitamento dos recursos, estudiosos argentinos calculam que, hoje, 30 milhões de pessoas já sejam beneficiadas com essa água. No Brasil, o Guarani espalha-se por oito Estados e aflora em algumas regiões do interior paulista: Botucatu, Franca, Lins, Presidente Prudente, Marília, São Carlos e Ribeirão Preto. Nessa última, o Aqüífero atinge profundidades menores, de até 100 metros abaixo da superfície. Esse fato oferece a Ribeirão uma condição especial, já que 100% do abastecimento da cidade é garantido pelo reservatório natural.
A proteção do Guarani pelo basalto, rocha oriunda do endurecimento da lava de erupções pré-históricas e cuja espessura na área da reserva de água chega, em alguns pontos, a dois quilômetros, garante alguma segurança quanto a uma das maiores preocupações dos estudiosos: a preservação. Cláudio Leite, pesquisador de Águas Subterrâneas da divisão de Geologia do IPT, reforça que "o Aqüífero Guarani é relativamente bem protegido" e evidencia que o percurso de conhecimento do reservatório tem como balizas "a exploração racional e a preservação".
Cláudio ainda alerta que as áreas mais vulneráveis a uma possível contaminação são exatamente aquelas de afloramento, a exemplo do que ocorre no contorno de toda a Bacia do rio Paraná (onde se localizam algumas das cidades paulistas citadas). Os riscos à preservação são poucos, mas a preocupação quanto a esse fator é certamente válida: embora difícil de ser concretizada, a contaminação, caso ocorra, é quase impossível de ser revertida. Na trilha de pesquisas, fica claro um ponto fundamental, norteador dos próprios pesquisadores: a imensidão do Aqüífero Guarani só ganha sentido, para estudiosos e beneficiários, se explorada em sintonia com o aproveitamento sustentável de toda a riqueza natural por ele oferecida.
Mas, para além do mapeamento da área e estudos de aproveitamento e preservação dos recursos desse verdadeiro manancial, a inevitável pergunta: a que se deve tamanho acúmulo de água potável no subsolo sul-americano?
A lenta formação do Aqüífero Guarani remonta à separação entre as placas continentais da América e da África, há 130 milhões de anos. As fissuras no chão resultantes do desprendimento das respectivas placas permitiram que a lava do núcleo terrestre subisse à superfície e, endurecida, constituísse um manto de rocha basalto. Aquilo que antes era um imenso areal na superfície ficou compactado pela camada basáltica e deu origem ao arenito, que aflora em alguns trechos da superfície terrestre. É através dessas bordas de arenito expostas e corroídas pela erosão que a água penetra no subsolo.