São Paulo (AUN - USP) - Está sendo construída na Cidade Universitária a sede que abrigará o Nucel – Núcleo de Terapia Celular e Molecular, centro multidisciplinar que envolve pesquisadores do Instituto de Química (IQ-USP) e médicos de vários hospitais de São Paulo. O grupo, que existe desde 2002 e atualmente trabalha no Laboratório de Biologia Celular e Molecular (LBCM) e na Unidade de Ilhotas Pancreáticas Humanas (UIPH) do Instituto de Química, se reuniu inicialmente para implantar no Brasil o Programa de Transplante de Ilhotas, mas expandiu seus objetivos para levar a terapia celular também para o tratamento de outras doenças, tais como a hemofilia e problemas reprodutivos.
A professora Mari Cleide Sogayar, pesquisadora do Instituto de Química e coordenadora do grupo, trabalha com ilhotas há 10 anos. Inicialmente, sua pesquisa era feita em pâncreas caninos. Após uma visita ao Diabetes Research Institute, em Miami, nos Estados Unidos, ela retornou ao Brasil com a intenção de implementar a pesquisa em órgãos humanos. Elaborou, então, juntamente com o endocrinologista Freddy Goldberg Eliaschewitz, chefe do Setor de Endocrinologia do Hospital Heliópolis, um projeto de pesquisa, aprovado pela Fapesp. O apoio da entidade possibilitou a construção, no Instituto, de um laboratório e uma sala biolimpa de padrão internacional.
O trabalho feito pelos cientistas pode beneficiar um tipo específico de portadores de diabetes do tipo 1, doença que causa destruição das ilhotas, grupos de células produtoras de hormônios que controlam o metabolismo de carboidratos, como a insulina e o glucagon, localizados no pâncreas. Por isso, o diabético não tem controle da taxa de açúcar em seu sangue. Tais taxas, se extremamente baixas, podem até levar ao coma. O paciente precisa, deste modo, receber insulina através de injeções. O isolamento de ilhotas de pâncreas de doadores possibilita sua implantação, tornando o diabético independente das injeções, ou reduzindo esta dependência. Mas tal isolamento não é simples de ser realizado. Apenas 1 ou 2% do tecido pancreático produz estes hormônios - explica Mari Cleide – o restante produz enzimas digestivas. Buscar as células necessárias, portanto, é como procurar agulha em palheiro, compara.
Já foi realizado no Brasil um transplante bem-sucedido de ilhotas, em 2002, no Hospital Albert Einstein, em uma paciente que sofreu de diabetes durante 25 anos. Mas Mari Cleide ressalta que este procedimento só é indicado para casos de extrema gravidade, que não podem ser controlados pela tradicional reposição de insulina. Além de caro e complexo, o transplante faz com que o paciente dependa, para o resto da vida, de imunossupressores, medicamentos que evitam a rejeição de órgãos e tecidos externos.
Estas técnicas estão começando a se difundir no Brasil. Uma equipe já foi formada em Curitiba, por um aluno de doutorado da própria Mari Cleide. Há outra equipe em formação em Porto Alegre, e iniciativas neste sentido estão surgindo em Minas Gerais. Para a professora, o grande desafio seria oferecer o transplante a todos os portadores de diabetes do tipo 1. Para que isso seja possível são necessários, além de aportes financeiros, também os avanços tecnológicos que a pesquisa vem buscando, como aperfeiçoar os processos de isolamento das células produtoras de hormônios e desenvolver a tecnologia de seu encapsulamento, que tornaria os imunossupressores desnecessários.