São Paulo (AUN - USP) - Um dado curioso e preocupante: segundo projeções de especialistas ambientais, no caso de as emissões de CFC continuarem crescendo no ritmo atual, em 2020 elas terão aumentado 60%. O problema decorrente é obvio: além do câncer de pele em humanos, haverá sérios prejuízos para o meio ambiente em geral.
Pensando nisso, um grupo de pesquisadores brasileiros, canadenses e argentinos idealizaram um projeto multidisciplinar e internacional, com o objetivo de estudar o tema. No Brasil, ele é coordenado pela Professora Sonia Gianesella, do Instituto de Oceanografia Biológica do IO-USP.
Financiado pelo Interamerican Institute for Global Research, com sede no campus do Inpe em São José dos Campos (SP), o projeto, que está sendo desenvolvido desde 1999, procura determinar como a radiação UV age sobre o fitoplâncton (algas pluricelulares que fazem fotossíntese). Constituem os grandes produtores de matéria orgânica que nutre direta ou indiretamente os seres vivos dos mais diversos ecossistemas da Terra. Garantem a manutenção da vida no planeta, além de fornecer o gás oxigênio necessário à atividade aeróbica).
É sabido que o recente aumento da emissão de gases como o CFC tem destruído cada vez mais a camada de ozônio, favorecendo a propagação da radiação UV solar. Além de efeitos diretos, como o câncer de pele em humanos, esse tipo de radiação age sobre o fitoplâncton, de maneiras que ainda não foram completamente estudadas.
O estudo é predominantemente voltado para o fitoplâncton das regiões polares, as mais atingidas pelo aumento de radiação UV. Faz-se um experimento comparativo, que consiste em coletar água limpa do mar em nove grandes sacos de plástico transparente, chamados mesocosmos, que são parcialmente isolados do mar. Esses sacos contêm plâncton da região estudada. Cada grupo de três deles é submetido a um nível diferente de radiação, entre zero (condição ambiente) e 60%, por meio de lâmpadas especiais, com o objetivo de analisar as possíveis reações do fitoplâncton.
Este experimento já foi realizado nas águas de Rimouski (CAN – junho de 2000) e Ubatuba (BRA – fevereiro de 2001), e ainda está por ocorrer também em Ushuaia (Argentina) e na Estação Antártica Argentina, no pólo sul. Como se nota, trata-se de regiões onde a incidência de radiação solar varia bastante. Ao final de todos os experimentos, os resultados serão comparados e finalmente conclusões aparecerão. Mas as comparações parciais apontam para uma provável existência de fotoprotetores, uma espécie de defesa contra a radiação UV.
A hipótese inicial é a de que o fitoplâncton de áreas tropicais tem mais fotoprotetores que o de regiões polares e subpolares. “A melhor analogia possível é com a melanina existente no corpo humano”, explica a professora Gianesella. “Moradores de áreas tropicais têm mais melanina que os de regiões temperadas, já que se trata de uma defesa contra o excesso de radiação solar. Algo parecido ocorre com as muitas espécies de fitoplâncton de diferentes latitudes, e a pergunta é: será que o fitoplâncton de regiões polares, que quase não tem proteção contra radiação UV, pode desenvolver essa proteção em caso de aumento da quantidade de radiação? Ainda estamos estudando isso”, diz ela.