São Paulo (AUN - USP) - O nível do mar na costa brasileira está subindo 40 centímetros por século. A medida, à primeira vista, não parece assustadora, mas o coordenador do programa Pontos Anfidrômicos e Variações Sazonais no Atlântico Sul, Afrânio de Mesquita, alerta: "Mantido este ritmo, em 200 anos Santos e Bertioga irão desaparecer".
Afrânio é responsável pelo Laboratório de Marés e Processos Temporais Oceânicos (MAPTOLAB) do Instituto Oceanográfico da USP, o IOUSP, e há anos analisa dados sobre o nível das águas marinhas coletados permanentemente nas duas bases científicas que o Instituto mantém na costa paulista, uma em Cananéia e outra em Ubatuba. As médias registradas por estas bases conferem com as informações obtidas em todo o planeta pelo International Panel of Climatic Changes (IPCC) - Painel Internacional de Mudanças Climáticas, confirmando que o problema é de ordem mundial. No início deste século, o nível do mar estava aumentando apenas na razão de 5 centímetros a cada cem anos. "Quarenta centímetros por século é um número muito grande", ressalta o professor.
O aumento no nível do mar possui, em tese, duas explicações, uma natural e outra de caráter humano. A primeira envolve o fenômeno chamado glaciação, no qual, periodicamente, as calotas polares se expandem e, em seguida, se contraem devido à natureza da órbita terrestre em torno do Sol. A segunda teoria está relacionada com a influência destrutiva que o homem exerce sobre o planeta, cujo maior exemplo é o conhecido efeito estufa - gases emitidos artificialmente pelo homem que têm impedido a liberação de parte da energia luminosa que a Terra recebe do Sol. Esta energia acumulada eleva a temperatura na superfície global, fazendo com que o gelo dos pólos derreta e, em conseqüência, o nível do mar aumente. "É possível que o homem continue produzindo estes gases até o limite máximo do efeito estufa, mas até quando a Terra conseguirá suportar estas alterações?" pergunta Afrânio.
As autoridades, cientes de tal perigo, procuram tomar providências. Em reunião recente, o grupo dos 8 grandes países, o G-8, composto por EUA, Canadá, Alemanha, Itália, França, Inglaterra, Japão e Rússia, estabeleceu uma cota máxima de gases que podem ser liberados na atmosfera de cada nação. Afrânio adverte que a cota sugerida é suficiente para impedir o aumento do efeito estufa, mas não para regredir seus efeitos. "Se a quantidade determinada pelo acordo internacional apenas mantiver constante o avanço do mar, não há dúvidas de que em 200 anos nós vamos ter um alagamento efetivo das orlas costeiras de todos os países".
Caso a catástrofe seja mesmo inevitável, o especialista tem duas soluções paliativas: a construção de diques, com rodovias elevadas, como já fizeram os holandeses, e o maior empenho do governo e das instituições científicas em estudos nesta área. O governo Collor desativou o Instituto de Pesquisa Hidroviárias (IPH), imobilizando vários marégrafos e reduzindo grande parte dos dados à disposição dos pesquisadores. "Hoje, no Brasil, temos a mesma viabilidade científica que a dos países mais pobres da África".